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Onofre Ribeiro

Bolhas que quebram o Estado

Em: 07/11/2018

O tema é espinhoso. Mas é real. Quanto mais cedo for tratado, mais cedo deixará de se transformar de espinhoso em conflituoso. São três vertentes. O funcionalismo público caríssimo pro cidadão-contribuinte, os poderes, e as despesas públicas. Somados esses três elementos inviabilizaram e os custos do Estado brasileiro, repetindo-se nos estados e municípios. Ficou insustentável. Enquanto havia ambiente aumentaram-se os impostos. Com a carga tributária no teto em relação ao mundo, o Brasil tem que resolver essa equação pelo caminho da redução das despesas do Estado.

Com a politização do serviço público brasileiro a partir de 1991 pela entrada do sindicalismo em território virgem, através das centrais sindicais, em especial a CUT, o serviço público aprendeu a fazer greve e a defender direitos cada vez mais crescentes. No período FHC, com seu viés de esquerda, abriu os cofres pro serviço público. Nem é preciso dizer o que houve nos governos petistas.

Hoje os salários no serviço público são muito superiores aos de idêntica função no mercado privado. Porém, a produtividade é muito inferior. Sucessivos reajustes salariais e o inchamento da máquina pública com funcionários, a partir das coligações partidárias de 1997 em diante, entupiu o serviço público de gente ociosa. Logo, de custos crescentes.

A mesma bolha alcançou os poderes. Todos os poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário, Tribunal de Contas e por conta da farra as empresas estatais, saíram completamente da realidade brasileira. Salários altos e penduricalhos a títulos de compensações. Algumas vergonhosas! No plano federal e nos estados.

Por fim, o déficit público nacional, próximo de R$ 200 bilhões em 2019, acendeu perigosa luz vermelha no painel. Sem poder aumentar os impostos governos terão que tomar atitudes. A primeira delas é cortar custos. E pra isso terão que furar todas as bolhas. Imagino as reações. Ninguém querendo perder vantagens, o clima ficará muito azedo.

Em Mato Grosso já se fala abertamente em Planos de Demissão Voluntária-PDV, pra funcionários estáveis de uma série de autarquias. Vai generalizar. No plano federal será uma tempestade. Muita gente deixando o emprego e descobrindo a dureza da vida sem o salário depositado no fim do mês, faça sol ou faça chuva. Volta à escola pra reaprender e a percepção dura de que a vida não cabe dentro de bolhas de vantagens!

Fico cá imaginando que, finalmente, a minha geração parece enxergar um tempo de eficiência e de baixo custo do Estado que nos governo, depois de ciclos de farra com os nossos impostos.


Re-construção

Em: 21/10/2018

Nenhuma grande nação tornou-se grande sem passar por algumas encruzilhadas longas e dolorosas. Tenho muito gosto pela História. Nenhum império da antiguidade tornou-se império sem antes passar por provas terríveis. Nenhuma grande população tornou-se grande por milagre ou por doação divina. Tudo teve que ser construído. Dediquei grande parte da minha vida a estudar a história egípcia. Império poderosíssimo da antiguidade construído em cima de esforços imensos. Quando esse esforço diminui ou fraqueja a História cobra o preço: o fim do império!

A Europa só saiu do absolutismo monárquico depois de séculos de sofrimento e, por fim, a Revolução Francesa. Mas a revolução destruiu milhares de pessoas. É um preço alto que se cobra nessas circunstâncias. Assim a História foi construída. No correr desta semana vi alguns filmes sobre as guerras na Ásia: na Malásia, na Coréia, no Vietnã e no Cambodja, além do clássico “As cartas de Iwo Jima”. Sofrimentos incalculáveis pra mudar o correr da História.

O que tem isso a ver com o Brasil? perguntaria o leitor. Tem tudo a ver. Somos um país nascido da pesada colonização portuguesa na América. Era um projeto predatório de arrancar o máximo de extrações possíveis, sem compromisso com qualquer tipo de futuro. Acabamos por nos tornar uma nação, mas profundamente contaminada por aquela ideia original de submissão.

Tudo isso pra chegar em 2018 onde, pela primeira vez, surge efetivamente na cena uma opinião pública brasileira que só agora se mostra nascendo. Demorou 518 anos. Desde sempre fomos uma colônia mal libertada do domínio português.

O que se vê na eleição de 2018 é uma onda de opinião pública caminhando numa direção. O mérito é que não se trata de uma onda provocada pelo marketing. Mas pela percepção nacional de que a política mal conduzida como veio nesses anos, é capaz de destruir uma nação grande ou pequena,

Não importa o resultado. A verdade é que, bem ou mal, o próximo presidente da República e os chamados poderes não poderão mais reinar absolutos encarapitados no alto dos seus privilégios e bem-estar pagos por 205 milhões de outras pessoas.

Por fim, parece-me que depois desta eleição, quaisquer governantes serão efetivamente policiados e julgados pela opinião pública. Aliás, muito revoltada com a colonização do cruel Estado sobre todos nós.


2013 a 2018

Em: 15/08/2018 

Em julho de 2013 grupos de estudantes invadiram inesperadamente as ruas da cidade de São Paulo em manifestação contra um aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus. Enfrentaram a polícia e deram “um baile” nos policiais em absoluta ordem. O primeiro dia deixou atônitas todas as autoridades do país porque não havia comandantes do movimento. Nos dias seguintes o governo perdeu a noção do movimento. Habituado a lidar com movimentos comandados pelas centrais sindicais ou sindicatos e MST, etc. o governo não soube compreender as manifestações.

No fim da primeira semana a presidente da República de então juntou os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, do Supremo Tribunal Federal e os ministros fortes do governo. Veio a público em rede de televisão convocada no domingo á noite prometer mudanças na constituição Federal e falou até em plebiscito. Claro que não cumpriu nada. Queria mesmo só o tempo pra agendar uma contraofensiva.

Ela veio na forma dos “black blocs”, grupo de mascarados arregimentados pela CUT e pelo MST. Pagos com dinheiro vindo dos cofres da CUT e do MST, e estes vindos da Secretaria Geral da presidência da República, comandada pelo maquiavélico Gilberto Carvalho. Saíram às ruas juntos com os estudantes. Quebraram bancos, revendas de automóveis, prédios públicos, cabines telefônicas, picharam prédios e agrediram pessoas. Como o movimento dos estudantes era pacífico eles abandonaram as ruas e aparentemente o governo conseguiu sossegar aqueles protestos.

Bom lembrar que eles não tinham chefes, não tinham comando, tinham a própria tv gravada nos celulares e não tinham dinheiro público e nem privado. Defendiam no segundo momento ética na política, o fim da corrupção e a Copa do Mundo, vista já naquele momento como um monumento à corrupção.

Pois bem. Lá se foram cinco anos. A presidente caiu, os jovens não voltaram às ruas. A maioria está entrando no mercado de trabalho. Confusa. Sem horizontes decentes. Revoltados ou indiferentes. Mais indiferentes. Sabem que a política não os representa na forma como está constituída. Diziam nas manifestações de 2013 que os políticos não os representavam. Hoje muito menos. Sem empregos, eles são o ponto de enigma destas eleições. Votarão? Sumirão das urnas e deixarão o barco correr por conta própria?

A verdade é que depois de 2013 nada mudou na política. Ao contrário. Piorou! Sem empregos razoáveis e sem esperança, os manifestantes de 2013 não assistirão aos programas eleitorais, não verão comícios e se guiarão pelas redes sociais em meio a fakes e notas duvidosas. Pobre país que não pode contar com a sua juventude!


Adianta querer?

Em: 08/08/2018

Tá na boca de todo mundo: “que país queremos?”. Todos querem um país ao seu modo. Anotem: não teremos! Não é assim que funciona. Uma pessoa perdida lá nos cabrobós da vida grava num celular um desabafo escutado aqui e ali. No fundo não deseja nada daquilo. Ou melhor. Até deseja. Desde que não ofenda os seus interesses. Nesse sentido, não há pobre, classe média e ricos no país que não se aproveitem das brechas pra lesar alguém nessa ou naquela situação.

Não fomos educados pra sermos cidadãos de uma nação moderna. Fomos educados pra sermos subalternos. Queixarmos sem convicção, votar de qualquer modo, porque desejamos mesmo é reclamar em mesa de bar ou nas rodinhas de conversa.

Fomos cuidadosamente educados pra sermos rebanho. Rebanho não muda. Só com muito tempo e muito sofrimento. Do contrário, migalhas são bem vindas e mantém o rebanho ruminando em passiva mastigação.

A destruição dos valores foi longa e cuidadosa. O jornal The Wall Street Journal, dos EUA, publicou matéria didática neste fim de semana sobre o Brasil. Disse que tem algum dinheiro está se mudando pros EUA, Canadá e Portugal, principalmente. É, também, o sonho de boa parte da juventude. Causas dessa diáspora: a insegurança jurídica e social vigentes no país.

Criminosos assumiram o comando das penitenciárias. Protegidos pelo bem-estar oferecido pelo Estado comandam a vida dos milhões cá fora. Criaram uma guerra civil. Os sistemas judiciais e os de direitos humanos aparelhados por um emburrecido sistema de caridade, confunde bandidos com cidadãos vulneráveis. Vulnerabilizam a sociedade que produz. A instabilidade jurídica do social e das leis brasileiras aterroriza o mundo.

Ideologias velhas comandam o pensamento político. Leis analisadas a cada dia descobrem como se pode burlar a legalidade na economia, na política dentro do Estado que governa o país.

Sei que esta leitura é pessimista. Mas é ela quem chegará às urnas daqui a exatos 67 dias. Na linha de frente das discussões nada que o país precisará agora e no futuro. Apenas overdose da mediocridade já consagrada. Ah. Como mudar? Perguntaria o angustiado leitor. O tempo, o tempo, o tempo e a mudança das atitudes desse passivo rebanho que rumina o capim à sombra da sua mediocridade.

O que está em cima é igual ao que está em baixo.