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Carolina Guimarães

As diversidades do dia a dia

Já se foi mais um ano e estamos aqui. Que bom podermos continuar tecendo a nossa história. Somos protagonistas do nosso destino. Algumas vezes, porém, a vida nos pega de surpresa. Nem sempre surpresas boas. Cabe a nós administrar o nosso viver e não deixar que o negativo supere o positivo.

O assunto do dia a dia, neste janeiro de 2019, é o calor. Calor de verdade. Não o calor da discussão, o calor do debate, o calor de um abraço carinhoso. Mas o calor do sol impiedoso que nos queima a pele.

Se vamos a uma casa lotérica, a uma loja, a um banco ou supermercado, o ar condicionado nos faz esquecer, por instantes, esse clima maluco.

Qualquer pessoa pode nos dizer: “ mas que calor hein…”. Mesmo que não a conheçamos, esta frase é a mais usada no dia a dia.   Ninguém vai nos contestar,  se abordarmos um estranho com esta frase.

De tanto falar em calor, a tela do computador ficou embaçada: é a evaporação das ideias fervilhantes.

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Ontem fui vítima de um trote que me deixou em pânico por alguns instantes. Gastei meu estoque de adrenalina que era para ser gasto o mês inteiro. Como meu filho e eu moramos muito perto um do outro, o medo passou rápido.  Ainda bem!

O telefone toca e, ao atender, uma voz estranha me falou que estava com meu filho amarrado e que iria matá-lo com marretadas na cabeça.  Falaram que, se eu pagasse uma quantia vultosa –  dinheiro que eu nunca tive – iriam soltá-lo. Caso contrário…. Puseram uma voz masculina no telefone e a pessoa chorava e dizia: “ mãe, pelo amor de Deus, arruma este dinheiro…” Corri para a casa de meu filho e, quando o vi, a adrenalina voltou ao normal.  Alguém me disse: “mas você caiu numa dessas?!….” Acredito que qualquer mãe se apavoraria ao ouvir a voz daquele que se passa por filho, em prantos.

Na minha cabeça jamais pensei que seria vítima de tanta maldade.

A conclusão a que cheguei foi esta: “ como existem neste mundo pessoas tão más, capazes de tal absurdo ????!!!!…….”

O título do texto é as diversidades do dia a dia e não as adversidades. O que acabo de relatar seria uma adversidade, mas graças ao bom Deus foi um trote de uma pessoa desalmada (e desocupada!!!!!!!).

Se passo esta experiência desgastante para os leitores é porque talvez possa evitar que alguma mãe ou algum pai passem por situação semelhante.

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As palavras bolsa e bolso estão na moda. Bolsa de valores, bolsa família, bolsa de estudo, bolsa de colostomia, Bolsonaro, o nosso Presidente, que, vítima de uma facada de um maluco no meio da multidão, passou a usar a bolsa de colostomia no hospital …

Existem muitas outas situações em que a palavra bolsa é usada.

“ Rodar bolsinha na rua “. Isso era dito quando as “mulheres de vida fácil” (vida fácil?!) se exibiam na rua para atrair a clientela. Com tanta modernidade, deve haver um aplicativo no mundo de hoje que sirva para tal função.

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A palavra inserir é de uso comum no nosso dia a dia. Se compramos com cartão, o que acontece sempre, a menina do caixa fala:  “ pode inserir o cartão”. Este verbo agora faz parte do dia a dia. Em outros tempos, ele ficava guardado para ser usado vez ou outra. Agora é de uso corriqueiro.

Dinheiro caiu de moda. O cartão o substitui nas mais diversas situações.

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Continuo achando que o uso de palavras ou expressões em inglês deve ser substituído por palavra ou expressões da nossa Língua Portuguesa. Um exemplo do nosso dia a dia: PET, KID…. E outras tantas.

Na porta das lojas de roupas infantis encontra-se a palavra KID em destaque e, nas lojas de produtos para animais, a palavra PET é usada com frequência. Será que a nossa Língua Portuguesa não consegue se impor sobre o inglês, pelo menos nos países onde o uso do nosso idioma é oficial?!

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A palavra feminicídio está no vocabulário das notícias da Televisão. Outra expressão em uso comum é “ abuso sexual   de vulneráveis”.

Por que será que o computador sublinhou de vermelho a palavra feminicídeo? Ela foi criada recentemente   para relatar fatos comuns do dia a dia.

O que me intriga é que aquele médium lá de Goiás é chamado João de Deus. E ainda aprontou tantas e mais algumas.

Se não fosse João de Deus, mas João do……

Bem, chega de devaneios. Voltemos ao aqui e ao agora.

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Que 2019 seja mais um tempo de viver em paz e de espalhar alegria. Que tenhamos todos nós a oportunidade de mais um ano com nossa família, nossos vizinhos, nossa rua, nossa cidade…

E que Deus nos encaminhe sempre para o Bem!


Chuva Choveu, Goteira Pingou 

05 de Dezembro de 2018

Chuva brava sempre me dá medo. Vontade de cobrir a cabeça, vontade de me agarrar a meu pai, pois era dele que vinha a coragem, quando os relâmpagos cortavam o céu, naquele distante do tempo.

Na minha infância de roça estão os fatos que me imprimiram esses medos.  Difícil me livrar deles, pois que vieram comigo até agora. Sigo em frente e, a cada relâmpago, vou continuar tampando os ouvidos e fechando os olhos.

Lá longe no tempo, estávamos nós, na simplicidade da vida, forjando nosso caráter e imprimindo em nossas memórias fatos, que ficaram para sempre.

Vou puxando por eles.

Chuva forte, tempestade, e minha mãe reunindo os meninos para rezar: “salve-rainha-mãe-de-misericórdia…” Todos juntos, ao redor dela, “onde tá fulano? vai chamar depressa”. Juntos, amontoados, o medo parecia menor.

“Menina, não pega em tesoura… atrai raio”. Minha mãe tampava todos os espelhos com um lençol.  Pareciam fantasmas pela casa afora.   E um cheiro de palha-benta queimando, espalhando-se no ar.  Em cada cômodo um punhado daqueles capins secos, fumegantes, numa tampa de lata.  Eram os galhos da procissão do Domingo de Ramos, guardados para quando viessem as tempestades.  Até hoje, em momentos de chuva braba, sinto, pela memória olfativa, aquele cheiro recendendo no ar.  Marcas do ontem.

De repente, no meio da salve-rainha, um relâmpago clareando tudo.  E a gente tremendo: “São Jerônimo, Santa Bárbara!”

De certa feita, meu irmão, mais novo do que eu, estava de castigo num quartinho que dava para o alpendre.  A chuva ainda não estava caindo.  E vem aquele trovão abalando tudo. Foi um berreirão de meninos correndo para ver se ele estava inteiro, sozinho, naquele quarto do castigo.  Meu Deus! Que medo, ele, longe de nós, pois que a segurança era todo mundo junto, ao redor de minha mãe, puxando a “salve-rainha”.

Depois da chuva, a enxurrada descia ameaçando tudo.  E o rio vinha cheio, água barrenta, lambendo barrancos, carregando galhos, espumando, espraiando pelas baixadas.

Se a chuva era rápida, tinha a festa das aleluias: “liluia, liluia, farinha na cuia” e, se déssemos a sorte de aparecer um arco-íris, lá ia a meninada gritando: “sol e chuva, casamento da viúva”. E, de repente, o sol tomava conta, a gente esquecia  o medo, esquecia  tudo e ia correr atrás das aleluias e das tanajuras.

Ah! … doce infância! Bom que a memória não levou essas lembranças ternas. O tempo levou, sim, um irmão de treze anos apenas, levou meu pai, levou minha mãe.  Mas nossa infância de roça, nossas salve-rainhas, o cheiro de palha-benta recendo no ar, estes estão aqui, na memória e no coração.

Que importância têm esses medos, se tantas lembranças doces me povoam a memória?!


O frio chegou…

23/05/2018

A palavra frio   se veste de roupagens diferentes, dependendo da circunstância. Múltiplas palavras se vestem de roupagem diferente, em circunstâncias diferentes.

Agora, neste mês de maio, estamos vivenciando um frio sem enfeites, sem colorido, sem nuances.   Friiiiiiiiiiiiiiiiio   mesmo.  É o assunto dos noticiários.

Se encontramos alguém no mercado, nas filas de banco, na rua, a primeira frase que falamos ou ouvimos é: “ mas que frio, hein?!”

Faça o teste e constate você mesmo.

Somos privilegiados.   Temos casa e quarto confortáveis e cobertores quentinhos nos aquecem no escuro da noite…

Já os moradores de rua… não dá nem pra imaginar o que eles passam…

Como as palavras se vestem de roupagem diferente, em circunstâncias diferentes, imagino alguns outros significados dessa palavra de quatro letras apenas.

O frio da alma, as palavras frias…  Uma relação amorosa que vai se declinando, vai esfriando…   é   pior que o frio da natureza.

A frieza do olhar, a frieza das palavras, a frieza da alma…  Tudo são situações arrepiantes…   E não há cobertor ou lareira   que nos aqueçam quando esse frio aparece.

Penso no contrário e me empolgo:   um abraço gostoso nos esquentando o corpo e a alma, um aperto de mão solidário são o reflexo da temperatura da alma.

Esquentar o coração de alguém com afeto, com carinho, com gentileza, vale mais do que doar cobertores…   O bom mesmo é esquentar o corpo e a alma de alguém. Doar cobertores para aquecer o corpo e partilhar afeto para aquecer a alma.  Aí fica perfeito.

Quando crianças, eu e meus irmãos, morávamos na fazenda.  Não havia geladeira.   Tudo muito simples.   Uma vez, fizemos gelatina, colocamos   a vasilha num jirau ao ar livre, à noite.    De manhã, fomos conferir.   Deu certo.

Hoje, no distante do tempo, fico imaginando como é fácil ser feliz.   Naquele momento, naquele frio da roça, a gelatina nos fez gritar e pular de alegria!

Neste 22 de maio comemorou-se o dia do abraço.

Abraço de verdade, abraço quente de afeto, abraço amigo, abraço da pessoa amada, abraço da mãe e do pai, abraço dos filhos, abraço dos netos…   Um sem número de outros abraços.    Mas que seja caliente, e não mera formalidade.

Concluo assim o meu texto:    vamos aquecer quem sente o frio no corpo.    Mas, e principalmente, vamos aquecer os que sentem frio na alma!