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Shadow

Carolina Guimarães


QUE   FRIO   HEIN?!!!!!     

08 de agosto de 2019     

Essa é a expressão mais usada nos últimos dias. Confira quantas vezes, no dia, você a fala ou a ouve.

No supermercado, na rua, no banco, nas casas lotéricas, ninguém inicia uma conversa, sem antes falar ou ouvir: “que friiiiiiiiiiiiiiiiio hein?!”

Ninguém contesta ninguém, já que realmente está gelado.

Os noticiários da TV confirmam:   todos os dias é parte dos jornais mais ouvida.

Dá para imaginar o que passam os moradores de rua?!

Dia desses, abri o meu guarda – roupa e   contei os cobertores: dez.   Para que tanto cobertor?!!!   Resolvi aquecer o corpo de um senhor que dorme ao relento, encostado a uma banca de revista, na porta de um supermercado. Fez uma expressão de gratidão que me comoveu. Outro senhor que varre a praça onde moro também foi escolhido para ganhar um cobertor.  Outra vez a expressão de gratidão… Comovente! …

E o banho quentinho antes de ir para cama?!!!!! Existe maior conforto? Eu não conheço.

Quando criança, morava na fazenda com meus pais e meus irmãos. Era perto do Rio Misericórdia, na região de Campos Altos.

À tarde, quando o céu estava avermelhado, dizia-se: “esta noite vai cair geada…” Não sabíamos que geada não cai do céu, como neve. Ontem, ouvi do senhor que cuida da praça essa mesma expressão. Fiquei comovida! Saudades do tempo da minha infância… de meus pais e de meus irmãos…

Somos pessoas felizes e temos que agradecer pelo conforto de termos uma casa quentinha, cobertores, uma sopa gostosa, fumegante… Isso é normal, poderá alguém pensar… Mas pense no contrário. Então comemore a felicidade de dormir em um quarto confortável, aconchegada a si mesmo, sem tremores   nem arrepios. Que coisa boa!!! Graças a Deus!!!

Vou lançar aqui um desafio e quem vencê-lo ganhará de presente um troféu. O desafio é: “Tomar um banho frio, às dez   horas da noite…” O troféu é um cobertor… já que esse é o melhor presente na nossa realidade gelada de hoje!

Arremato assim o meu texto e vou fechar as janelas, antes que o vento frio tome conta da minha casa e da minha alma.


Palavras e palavras

12 de junho de 2019

Não   vou escrever um texto coeso, compacto.   Apenas vou comentar alguns aspectos do    nosso dia a dia

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Houve uma época em que, quando se fazia uma lista de compras, às vezes constava um item: dentifrício. Depois passamos a usar creme dental.    Pensei que a palavra dentifrício   não existisse.   Consultei o Aurélio   Buarque, o grande dicionarista, e ela    existe sim.

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Num tempo já distante, ouvi pessoas dizerem: “… está tudo muito dimudado…”   Achava estranho. Outra vez o dicionário me surpreendeu:  as palavras demudar, demudado e outras afins existem. Pego carona neste demudado e acrescento que o nosso clima está de fato demudado.   Chuva em maio?!!!   Que eu me lembre, dias molhados como os que vimos neste maio de 2019  eram de dezembro a março.  Lembram da música “ As águas de março”?    Pois é, São Pedro anda meio desorientado.   Agora, o mais adequado seria: “As águas de maio…”

E aquele friozão doído de maio, junho e julho para onde foi?

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O “pregunta” de uso natural de muitas pessoas,  imagino que seja de origem  espanhola.  Já ouvi muito a expressão “ pregunta pra ele...”    Está falando espanhol, sem saber.

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Uma expressão que faz parte da linguagem de   algumas pessoas: “aonde você vai?”   Só que na linguagem oral do dia a dia, ouve-se muito: “onde cê lavai?”   ou   ainda, no nosso mineirês –   “ on cê lavai “

O computador não sublinhou de vermelho, porque a forma verbal “ Lavai “   do verbo lavar existe.   Então, a sua interpretação “virtual”   foi do  verbo  lavar   e   não do  verbo ir.

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Quando ouvimos a expressão   “Ah!   Lembrei”, nem pensamos que o “ alembrei “   que algumas pessoas usam  deve ter aí sua origem.  Isso já é um  devaneio meu.

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Não precisamos ficar  arrepiados,  quando ouvimos no dia a dia expressões como    “ cê tá bom? ”     E   outras tantas do uso coloquial.   Claro que não é erro.   Faz parte da linguagem informal do   nosso dia a dia.  Mais  comum e mais natural do que “ você está bom?”

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Quando criança –  com apenas nove anos – minha irmã e eu fomos estudar em São Paulo.  O impacto entre o nós vivêramos na fazenda e o que enfrentamos    foi incrível.   Acostumadas a falar trem, nossos primos davam risada da nossa mineiridade.   Eles falavam negócio.   Enquanto para nós era “trem esquisito”, para eles era  “negócio  esquisito”

Não sei se ainda existe este confronto entre  mineiros e paulistas.   Nós, mineiros continuamos a falar “trem” e os paulistas continuam falando “negócio”?

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E a expressão “ pra mode”?    Alguém sabe a sua origem?    Na fala do dia a dia, principalmente na zona rural,   já ouvi muito:  “ vou na cidade pra mode comprar uns mantimentos…”   Não encontrei nenhuma expressão semelhante, que pudesse justificar o seu uso.

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Alinhavei essas ideias para tecer o meu texto.  Se alguém quiser acrescentar mais alguma expressão do nosso falar cotidiano, fique à vontade.

 


Ditadura nunca mais

02 de maio de 2019

Mais de cinquenta anos são passados, desde aquele fatídico 31 de março de 1964.

Para esta geração que aí está, esta moçada de vinte, trinta anos, ficaram não mais que os registros nos livros, assim como outras fases negras da nossa História.   Para muitos milhões de brasileiros, no entanto, este período, gravado na alma e nas mentes, é um estigma indelével, como marca de ferro em brasa.  Lembrança triste de um período nebuloso de vinte e um anos de liberdades amputadas, de falas amordaçadas, ideários despedaçados…

Filhos desaparecidos, pais que nunca mais voltaram para casa, torturas sangrentas sob o olhar e a chibata de homens que diziam executar ordens superiores.    Alguns deles ainda estão aí. Será que dormem em paz?

Se quisermos conhecer o sinistro legado desse período, basta que leiamos os relatos de livros que são um libelo contra a Ditadura.

Só para não esquecermos: 10.000 exilados, 4682 cassados, 245 estudantes expulsos das universidades e uma lista de mortos e desaparecidos que chega a mais de duzentos.

Siglas como DOI-CODI, DOPS, CPPM, SNI, AI–1, AI-2, AI-5 são marcas tão profundas que lembrá-las é sentir arrepio na alma e no coração.

Nomes como o de Médici são para ser esconjurados e banidos de nossa memória.

Agora, na distância do tempo, revistas e livros relatam esses horrores como forma de exorcizar os fantasmas desse período sombrio.  Na Revista Época de número 302, a reportagem de capa – OS SEGREDOS DO ARAGUAIA – traz as atrocidades cometidas contra aqueles que tiveram a coragem de resistir e foram executados sumariamente, depois de passarem por torturas, as mais cruéis.  Só agora, restos mortais são resgatados e poderão ser entregues às famílias, depois que alguns dos que participaram dessas chacinas se dispuseram a identificar o lugar onde foram enterrados os mortos do Araguaia.

Não dá para esquecer o que o país viveu nestes vinte e um anos. Muitas bocas amordaçadas, muitas falas mutiladas, muitos cadáveres amontoados anônimos em covas clandestinas (sob o eufemismo de desaparecidos políticos…).

O tempo do coturno já passou.  Mas não há como esquecê-lo. Também não há como esquecer aqueles que perderam a vida, porque tiveram a coragem de não calar.

Mais de cinquenta anos são passados.  Não nos esqueçamos nunca dessa nódoa que marcou a nossa História. E que jamais a Democracia, em nosso país, seja assombrada pelo fantasma da Ditadura.

Na Folha de São Paulo do dia 31 de março último, um artigo intitulado “ Do golpe de 1964 à ditadura”, escrito por uma   equipe   de cinco ex-membros da Comissão Nacional das Verdade, no   último parágrafo lemos: “ comemorar o golpe de 1964 significa celebrar as graves violações de direitos humanos e crimes contra a humanidade, a partir dele perpetrados, e até hoje impunes, implicando intolerável apologia da violência. ”

Não   há como acrescentar nenhuma palavra.  Esse trecho entre aspas   diz tudo.


COM   O   PÉ   DIREITO

Sempre ouvimos, nos finais de ano, como também no início de janeiro esta frase:   feliz Natal e próspero ano novo.  Já é um hábito entre todos.   Muitas vezes nem pensamos no que estamos falando ou ouvindo.

Começo de ano sempre surgem os propósitos, as boas intenções, as promessas…  Mas, na maioria das vezes são esquecidas, tão logo o ano comece a andar.

As frases mais usadas ou só pensadas são:  este ano eu vou caminhar mais, vou economizar mais, vou ler mais e por aí afora.

Melhor mesmo é colocar o pé direito à frente e ir fazendo o que nem se prometeu, mas pode melhorar o nosso dia a dia.

Uma prática que tenho colocado em minha vida é:   gostar do agora.

Agora eu posso dirigir a minha vida, posso ir e vir, posso resolver meu cotidiano sozinha…

É óbvio que dependemos uns dos outros.  Este outro pode ser o mecânico, o médico, o dentista, o funcionário da limpeza pública, o bombeiro, o cozinheiro, o professor, o carteiro….    Afinal, se a vida é multiface, existem pessoas para todas as tarefas.  E somos todos indispensáveis.  Existem braços e mentes, os mais diversos para dar conta do cotidiano.

Então, ninguém é absolutamente independente.  Mas, enquanto pudermos resolver aquilo que nos cabe resolver, sem que ninguém precise nos servir de muleta, temos motivo de sobra para ser felizes. Para comemorar, agradecer, sorrir, gostar do hoje, do agora….

Não adiemos nossa felicidade para a próxima hora, o próximo dia, a próxima semana, o próximo mês, o próximo ano…

Se ainda somos independentes e competentes para resolver o nosso dia a dia, isso é motivo de sobra para comemorarmos.

Assim, tomemos posse do HOJE.

A vida é uma incógnita.

Comemore, pois, o agora, o hoje, sem adiar nada.

Dê risada, caminhe, cante, ouça suas músicas preferidas…

A felicidade não está no carro novo, na casa linda, na plástica para rejuvenescer, na viagem para outro país…

A felicidade está em estar vivo, ter saúde, poder ir e vir…

Não julguem minhas palavras ingênuas   ou tolas.  Penso assim de verdade.

Então, pé direito em 2019.

O AGORA    É   A   NOSSA   ÚNICA    CERTEZA…

 


As diversidades do dia a dia

07 de Fevereiro de 2019

Já se foi mais um ano e estamos aqui. Que bom podermos continuar tecendo a nossa história. Somos protagonistas do nosso destino. Algumas vezes, porém, a vida nos pega de surpresa. Nem sempre surpresas boas. Cabe a nós administrar o nosso viver e não deixar que o negativo supere o positivo.

O assunto do dia a dia, neste janeiro de 2019, é o calor. Calor de verdade. Não o calor da discussão, o calor do debate, o calor de um abraço carinhoso. Mas o calor do sol impiedoso que nos queima a pele.

Se vamos a uma casa lotérica, a uma loja, a um banco ou supermercado, o ar condicionado nos faz esquecer, por instantes, esse clima maluco.

Qualquer pessoa pode nos dizer: “ mas que calor hein…”. Mesmo que não a conheçamos, esta frase é a mais usada no dia a dia.   Ninguém vai nos contestar,  se abordarmos um estranho com esta frase.

De tanto falar em calor, a tela do computador ficou embaçada: é a evaporação das ideias fervilhantes.

***

Ontem fui vítima de um trote que me deixou em pânico por alguns instantes. Gastei meu estoque de adrenalina que era para ser gasto o mês inteiro. Como meu filho e eu moramos muito perto um do outro, o medo passou rápido.  Ainda bem!

O telefone toca e, ao atender, uma voz estranha me falou que estava com meu filho amarrado e que iria matá-lo com marretadas na cabeça.  Falaram que, se eu pagasse uma quantia vultosa –  dinheiro que eu nunca tive – iriam soltá-lo. Caso contrário…. Puseram uma voz masculina no telefone e a pessoa chorava e dizia: “ mãe, pelo amor de Deus, arruma este dinheiro…” Corri para a casa de meu filho e, quando o vi, a adrenalina voltou ao normal.  Alguém me disse: “mas você caiu numa dessas?!….” Acredito que qualquer mãe se apavoraria ao ouvir a voz daquele que se passa por filho, em prantos.

Na minha cabeça jamais pensei que seria vítima de tanta maldade.

A conclusão a que cheguei foi esta: “ como existem neste mundo pessoas tão más, capazes de tal absurdo ????!!!!…….”

O título do texto é as diversidades do dia a dia e não as adversidades. O que acabo de relatar seria uma adversidade, mas graças ao bom Deus foi um trote de uma pessoa desalmada (e desocupada!!!!!!!).

Se passo esta experiência desgastante para os leitores é porque talvez possa evitar que alguma mãe ou algum pai passem por situação semelhante.

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As palavras bolsa e bolso estão na moda. Bolsa de valores, bolsa família, bolsa de estudo, bolsa de colostomia, Bolsonaro, o nosso Presidente, que, vítima de uma facada de um maluco no meio da multidão, passou a usar a bolsa de colostomia no hospital …

Existem muitas outas situações em que a palavra bolsa é usada.

“ Rodar bolsinha na rua “. Isso era dito quando as “mulheres de vida fácil” (vida fácil?!) se exibiam na rua para atrair a clientela. Com tanta modernidade, deve haver um aplicativo no mundo de hoje que sirva para tal função.

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A palavra inserir é de uso comum no nosso dia a dia. Se compramos com cartão, o que acontece sempre, a menina do caixa fala:  “ pode inserir o cartão”. Este verbo agora faz parte do dia a dia. Em outros tempos, ele ficava guardado para ser usado vez ou outra. Agora é de uso corriqueiro.

Dinheiro caiu de moda. O cartão o substitui nas mais diversas situações.

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Continuo achando que o uso de palavras ou expressões em inglês deve ser substituído por palavra ou expressões da nossa Língua Portuguesa. Um exemplo do nosso dia a dia: PET, KID…. E outras tantas.

Na porta das lojas de roupas infantis encontra-se a palavra KID em destaque e, nas lojas de produtos para animais, a palavra PET é usada com frequência. Será que a nossa Língua Portuguesa não consegue se impor sobre o inglês, pelo menos nos países onde o uso do nosso idioma é oficial?!

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A palavra feminicídio está no vocabulário das notícias da Televisão. Outra expressão em uso comum é “ abuso sexual   de vulneráveis”.

Por que será que o computador sublinhou de vermelho a palavra feminicídeo? Ela foi criada recentemente   para relatar fatos comuns do dia a dia.

O que me intriga é que aquele médium lá de Goiás é chamado João de Deus. E ainda aprontou tantas e mais algumas.

Se não fosse João de Deus, mas João do……

Bem, chega de devaneios. Voltemos ao aqui e ao agora.

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Que 2019 seja mais um tempo de viver em paz e de espalhar alegria. Que tenhamos todos nós a oportunidade de mais um ano com nossa família, nossos vizinhos, nossa rua, nossa cidade…

E que Deus nos encaminhe sempre para o Bem!


Chuva Choveu, Goteira Pingou 

05 de Dezembro de 2018

Chuva brava sempre me dá medo. Vontade de cobrir a cabeça, vontade de me agarrar a meu pai, pois era dele que vinha a coragem, quando os relâmpagos cortavam o céu, naquele distante do tempo.

Na minha infância de roça estão os fatos que me imprimiram esses medos.  Difícil me livrar deles, pois que vieram comigo até agora. Sigo em frente e, a cada relâmpago, vou continuar tampando os ouvidos e fechando os olhos.

Lá longe no tempo, estávamos nós, na simplicidade da vida, forjando nosso caráter e imprimindo em nossas memórias fatos, que ficaram para sempre.

Vou puxando por eles.

Chuva forte, tempestade, e minha mãe reunindo os meninos para rezar: “salve-rainha-mãe-de-misericórdia…” Todos juntos, ao redor dela, “onde tá fulano? vai chamar depressa”. Juntos, amontoados, o medo parecia menor.

“Menina, não pega em tesoura… atrai raio”. Minha mãe tampava todos os espelhos com um lençol.  Pareciam fantasmas pela casa afora.   E um cheiro de palha-benta queimando, espalhando-se no ar.  Em cada cômodo um punhado daqueles capins secos, fumegantes, numa tampa de lata.  Eram os galhos da procissão do Domingo de Ramos, guardados para quando viessem as tempestades.  Até hoje, em momentos de chuva braba, sinto, pela memória olfativa, aquele cheiro recendendo no ar.  Marcas do ontem.

De repente, no meio da salve-rainha, um relâmpago clareando tudo.  E a gente tremendo: “São Jerônimo, Santa Bárbara!”

De certa feita, meu irmão, mais novo do que eu, estava de castigo num quartinho que dava para o alpendre.  A chuva ainda não estava caindo.  E vem aquele trovão abalando tudo. Foi um berreirão de meninos correndo para ver se ele estava inteiro, sozinho, naquele quarto do castigo.  Meu Deus! Que medo, ele, longe de nós, pois que a segurança era todo mundo junto, ao redor de minha mãe, puxando a “salve-rainha”.

Depois da chuva, a enxurrada descia ameaçando tudo.  E o rio vinha cheio, água barrenta, lambendo barrancos, carregando galhos, espumando, espraiando pelas baixadas.

Se a chuva era rápida, tinha a festa das aleluias: “liluia, liluia, farinha na cuia” e, se déssemos a sorte de aparecer um arco-íris, lá ia a meninada gritando: “sol e chuva, casamento da viúva”. E, de repente, o sol tomava conta, a gente esquecia  o medo, esquecia  tudo e ia correr atrás das aleluias e das tanajuras.

Ah! … doce infância! Bom que a memória não levou essas lembranças ternas. O tempo levou, sim, um irmão de treze anos apenas, levou meu pai, levou minha mãe.  Mas nossa infância de roça, nossas salve-rainhas, o cheiro de palha-benta recendo no ar, estes estão aqui, na memória e no coração.

Que importância têm esses medos, se tantas lembranças doces me povoam a memória?!


O frio chegou…

23/05/2018

A palavra frio   se veste de roupagens diferentes, dependendo da circunstância. Múltiplas palavras se vestem de roupagem diferente, em circunstâncias diferentes.

Agora, neste mês de maio, estamos vivenciando um frio sem enfeites, sem colorido, sem nuances.   Friiiiiiiiiiiiiiiiio   mesmo.  É o assunto dos noticiários.

Se encontramos alguém no mercado, nas filas de banco, na rua, a primeira frase que falamos ou ouvimos é: “ mas que frio, hein?!”

Faça o teste e constate você mesmo.

Somos privilegiados.   Temos casa e quarto confortáveis e cobertores quentinhos nos aquecem no escuro da noite…

Já os moradores de rua… não dá nem pra imaginar o que eles passam…

Como as palavras se vestem de roupagem diferente, em circunstâncias diferentes, imagino alguns outros significados dessa palavra de quatro letras apenas.

O frio da alma, as palavras frias…  Uma relação amorosa que vai se declinando, vai esfriando…   é   pior que o frio da natureza.

A frieza do olhar, a frieza das palavras, a frieza da alma…  Tudo são situações arrepiantes…   E não há cobertor ou lareira   que nos aqueçam quando esse frio aparece.

Penso no contrário e me empolgo:   um abraço gostoso nos esquentando o corpo e a alma, um aperto de mão solidário são o reflexo da temperatura da alma.

Esquentar o coração de alguém com afeto, com carinho, com gentileza, vale mais do que doar cobertores…   O bom mesmo é esquentar o corpo e a alma de alguém. Doar cobertores para aquecer o corpo e partilhar afeto para aquecer a alma.  Aí fica perfeito.

Quando crianças, eu e meus irmãos, morávamos na fazenda.  Não havia geladeira.   Tudo muito simples.   Uma vez, fizemos gelatina, colocamos   a vasilha num jirau ao ar livre, à noite.    De manhã, fomos conferir.   Deu certo.

Hoje, no distante do tempo, fico imaginando como é fácil ser feliz.   Naquele momento, naquele frio da roça, a gelatina nos fez gritar e pular de alegria!

Neste 22 de maio comemorou-se o dia do abraço.

Abraço de verdade, abraço quente de afeto, abraço amigo, abraço da pessoa amada, abraço da mãe e do pai, abraço dos filhos, abraço dos netos…   Um sem número de outros abraços.    Mas que seja caliente, e não mera formalidade.

Concluo assim o meu texto:    vamos aquecer quem sente o frio no corpo.    Mas, e principalmente, vamos aquecer os que sentem frio na alma!